Há 100 anos nascia Mário Filho, o ‘Criador das multidões’
Jornalista revolucionou o futebol brasileiro na escrita e na prática e idealizou o desfile das escolas de samba
Mário Filho (direita) ao lado do irmão Nelson Rodrigues: ícones do jornalismo brasileiro
Imagine o futebol sem o Maracanã e a expressão Fla-Flu como um termo esquecido no tempo, que certa vez designou com ironia uma combinado formado pelos dois times. Pense também nas torcidas sem algazarra e o colorido das bandeiras. Ou então no carnaval sem o desfile das escolas de samba. Pois bem. Se não fosse o jornalista Mário Filho (03/06/1908 - 17/09/1966), cujo centenário se celebra nesta terça-feira, estes símbolos da cultura de massa brasileira ou não existiriam ou levariam tempos para surgir.
Do mesmo jeito que transformou o futebol e o carnaval, Mário Filho mudou para sempre a linguagem do jornalismo esportivo brasileiro, primeiro no jornal “A Manhã”, depois na “Crítica”. Os textos rebuscados ganharam a linguagem vibrante das arquibancadas, aproximando os leitores de seus clubes. Jogadores, que até então posavam para as fotos eretos e de terno e gravata passaram a ser clicados em ação.
Em “O Globo”, o jornalista promoveu os jogos da Liga Carioca ao premiar os torcedores mais animados e criativos. As arquibancadas viraram uma grande festa, tomadas por bandeiras, fogos de artifício e bandas carnavalescas.
Paralelamente ao jornal “O Globo” o empresário Mário Filho criou um diário próprio, o “Mundo Esportivo”, que durou menos de um ano, mas proporcionou a criação do que anos mais tarde seria conhecido como “Maior espetáculo da Terra”. Sem campeonato para cobrir, um repórter do jornal sugeriu a realização de um concurso entre as escolas de samba da cidade. A partir de 1930 o carnaval nunca mais seria o mesmo.
Caberia ao irmão, o dramaturgo Nelson Rodrigues (23/08/1912 - 21/12/1980), definir Mário Filho como “o criador das multidões”.
Mário Filho escreveu o clássico da literatura esportiva brasileira
‘O negro no futebol brasileiro‘ contribuiu para a história da sociedade e da cultura brasileiras
Um encontro de gigantes: o jornalista Mário Filho e o maior jogador de todos os tempos, Pelé
Lançado em 1947, “O negro no futebol brasileiro” mantém-se até hoje como o maior clássico da literatura esportiva brasileira. A história da ascensão social do negro no Brasil através do esporte, e a importância deste fato na formação da cultura do país, começou a ser forjado cinco anos antes, quando Mário Filho criou uma coluna em “O Globo” chamada “Da primeira fila”. Através dela, investigava a história do futebol carioca. Como até então jornais, revistas e documentos de clubes excluíam os negros, ele recorreu a entrevistas e conversas com torcedores, jogadores e dirigentes.
Em trecho do prefácio do livro, o sociólogo e antropólogo Gilberto Freyre diz que a obra é uma “contribuição valiosa para a história da sociedade e da cultura brasileiras na sua transição da fase predominantemente rural para a predominantemente urbana”.
De acordo com o livro “Com brasileiro, não há quem possa”, de Fátima Antunes, Mário Filho “chegou assim à consciência de que o futebol tinha características de um verdadeiro ritual, ressaltando a força simbólica desse esporte que se consolidava, à época de seus estudos, como esporte de massa”.
Além de “O negro no futebol brasileiro”, Mário Filho escreveu mais nove livros: “Bonecas” (1927), “Copa Rio Branco” (1932), “Histórias do Flamengo” (1934), “Romance do Football” (1949), “Senhorita” (1950), “Copa do Mundo de 62” (1962), “Viagem em torno de Pelé” (1964), “O rosto” (1965) e “Infância de Portinari” (1966).
‘Mário Filho merecia que o velassem multidões imortais’
Frase de Nelson Rodrigues retrata a luta do irmão pela construção do Maracanã, onde, para o dramaturgo, ele deveria ter sido enterrado
Defensor da construção do Maracanã, Mário Filho foi imortalizado: o estádio ganhou o seu nome
A obra tornou-se prioridade após uma série de reportagens comandadas pelo jornalista. A questão passou a ser o local. Foi travada uma batalha entre dois lados. Os que defendiam a área abandonada do antigo Derby Club, no Maracanã, liderados por Mário Filho; e os favoráveis ao bairro de Jacarepaguá, cooptados pelo inflamado vereador Carlos Lacerda. Venceu o primeiro, após votação na Câmara dos Vereadores e o apoio da prefeitura.
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Com o Maracanã por túmulo, Mário Filho merecia que o velassem multidões imortais“
A criação do projeto se arrastou e a burocracia atravancou o início das obras. Políticos começaram a ir contra o estádio quando Mário Filho divulgou em seu “Jornal dos Sports” uma pesquisa de opinião em que 87% dos entrevistados eram favoráveis ao estádio novo. Finalmente, no dia 2 de agosto, o Maracanã começou a ser erguido por cerca de 200 operários. Após temores de que não houvesse tempo para a conclusão antes da Copa do Mundo, o gigante de 155 mil lugares ficou pronto no dia 12 de junho de 1950, 12 dias antes do início da competição.
Quando Mário Filho morreu, vítima de um ataque cardíaco em setembro de 1966, amigos se mobilizaram para que o Maracanã fosse batizado com seu nome. Um mês depois, o desejo se tornou realidade. Nélson Rodrigues, mais uma vez, cunhou uma nova e célebre frase sobre o irmão, de quem era fã confesso: “O maior estádio do mundo tem o seu nome. Pena que não o tenham enterrado lá. Com o Maracanã por túmulo, Mário Filho merecia que o velassem multidões imortais”.
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